quinta-feira, 12 de setembro de 2013



BEIJO-TE NA SAUDADE

Pai, eu queria te beijar.
Pegar tua mão e segurar.
Queria te abraçar fortemente.
Como antigamente.
Queria teu olhar, tuas palavras.
Queria conversar.
Como naquele tempo.
Sob as murtas quanto dialogamos!
Estou lembrando um dia que ficamos acompanhando o desenvolver de um cacho de marimbondos.
De binóculo nas mãos ficávamos a olhar, a olhar, a olhar...
Meu querido, em certas horas eu gostaria de voar.
De ir ao infinito e voltar.
Aqui duas criaturas tão amadas precisam de mim.
Não precisam tanto assim.
Mas eu gosto de com elas estar.
Sabes de quem estou falando.
Pai, eu segui nesta vida amando.
Tu viste meu sofrer?
Viste como ficou insuportável meu viver?
E como eu consegui superar?
Viste, meu querido, que agora estou mais valente?
Será que isto te deixa mais contente?
Eu sempre fui tua filha querida.
E o amor segue depois desta vida?
Eu queria entender o que existe além da porta da morte.
Mas aqui é silêncio... aqui é só para viver e aguardar as respostas.

sonia delsin 


AS BATIDAS DE NOSSOS CORAÇÕES...
 
Descanso minha cabeça sobre seu peito.
Ouço as batidas de seu coração.
Deslizo minha mão pelos seus pelos.
Gosto do contato.
Do sabor de seus beijos.
De suas mãos acariciando meus cabelos.
Sua voz sussurrando que me ama.
Gosto de lhe falar.
De lhe ouvir.
De senti-lo tão próximo.
Gosto de seus olhos me dizendo coisas.
De nossos corpos suados.
Enroscados.
Ó como gosto desta simbiose que nos transformamos.
De nosso envolvimento.
Desta cumplicidade doce que fez de nós dois quase um só ser.
Gosto de relembrar momentos nossos...
milhares de momentos de uma vida inteira juntos.
E de pode vivê-los de novo.
O que amo em você e esta continuação de mim.
É podermos estender nossos corpos...
e sentirmos nossas almas fundindo-se nos abraços.
Abraços que nossos corpos nos cobram.
Amo nossos corações batendo no mesmo compasso.
Alguma coisa estranha esteve interferindo entre nós dois...
Deixamos algo se infiltrar em nosso mundo.
Nós que prometemos que seríamos um do outro a vida inteira.
Eu o amo. Amo mais do que a vida, do que a mim mesma.
O amor é sempre o mesmo.
Hoje estive refletindo sobre isso e cheguei a conclusão de que o amo
como sempre amei.
Ainda quero as batidas de nossos corações no mesmo ritmo.
Quero ser só sua... para sempre.
Minha vida não tem sentido sem você.
O que quer que seja que esteve nos ameaçando não é mais forte que nós.
Nós somos uma dupla imbatível, lembra-se meu amor?

sonia delsin 


A VOZ DE UM AMIGO

Meu Deus!
Meu pai eu estou aqui...
Da garagem posso olhar um céu todo azul.
Um prédio alto. Algumas residências. Um pedacinho da rua.
Há plantas por aqui também.
O muro que circunda o prédio está coberto de heras e gosto disso.
Gosto da forma que estas plantas se agarram às paredes.
Parece a minha alma se agarrando à vida neste instante.
E há algumas árvores floridas plantadas na calçada.
De alguma forma elas alegram um pouco meu coração machucado.
É uma tarde numa terra que não é a minha.
Começo a pensar em todos os acontecimentos destes meus últimos anos.
Tanta coisa.
Tantas perdas e tanta busca.
Começo a pensar nas conquistas, nos valores.
Nos tesouros enterrados em nosso ser.
Nas amizades.
Estou recordando agora um amigo querido. Uma voz que chegou no momento mais preciso.
Um amigo que abriu o peito e me ofereceu um cantinho para que eu me instalasse confortavelmente.
Alguém que me disse: Não existe o abismo.
Existe o amanhã.

sonia delsin 


O AMOR É UM GRANDE LAÇO

Estive ouvindo Djavan.
O amor é um grande laço...
Que delícia de música!
Um passo para uma armadilha...
Eu o adoro.
Adoro esta música.
Um louco girando em círculos pra alimentar a magia...
Adoro Pétalas também.
Não me canso de ouvir.
Viajo quando ouço suas músicas.
Elas têm o dom de me acalmar.
Gosto de ouvi-las de olhos fechados.
Igual você nos meus braços...
Lógico que gosto de ouvir música num volume muito baixo.
Gosto de me deitar na rede e ficar sentindo a melodia.
Quando jovem adorava dançar música lenta.
Eu flutuava naquelas horas.
Djavan me faz sentir desejos de dançar.
Soltar meu corpo mesmo que seja em companhia do vento.
Na areia... descalça.
Rodopiar... girar.
Ficar tonta e cair.
Sonhar...
Lindos sonhos.
Lugares belos.
Flocos de algodão.
Coração leve.
É isto que este cantor faz comigo.
Me faz sonhar... me faz divagar.

sonia delsin 


NÃO SOMOS HERÓIS DE NADA

Às vezes me pergunto quantas vezes estive aqui.
Quantas vezes precisei passar pelos mesmos caminhos e descaminhos?
Inúmeras vezes vesti e desvesti corpos físicos.
Atravessei os umbrais da morte.
E por que nos esquecemos das nossas outras vidas?
Talvez para não congestionar o nosso ser.
Vivemos na ilusão de que o que importa é só a matéria.
Algumas vezes despertamos para a verdade.
Outras não.
Eu penso que vivemos envoltos em véus.
Em longos véus que encobrem a realidade.
Vivemos de aspectos e nem dos damos conta de que não enxergamos tudo o que existe.
As outras dimensões estão ao nosso alcance. Convivemos com ela e não as vemos.
Não somos heróis de nada. Porque ora somos tudo, ora somos nada.
Vivemos numa constante ida e volta e quando tentamos entender as razões descobrimos que somos quase analfabetos em relação ao Universo.
Em relação ao sumamente importante.
Vivemos de ilusões, fantasias.
E assim a vida segue como uma grande engrenagem em que as peças vão se encaixando. Nascemos, morremos, renascemos e remorremos.
Nosso espírito vem a cada novo tempo em busca de aprimoramento. E o caminho nos oferece todas as possibilidades de crescermos, de evoluirmos.
Vamos seguindo com nossas qualidades, nossos defeitos.
Não podemos nos julgar os maiorais, somos no fundo todos iguais.

sonia delsin 



EU E VOCÊ

Nos encontramos.
Foi um encontro?
Um reencontro?
Nada vou dizer.
Como posso saber?
A sensação foi de que lhe conhecia.
Que não lhe encontrei naquele dia.
Mas... melhor calar.
Exagero tantas vezes quando me ponho a conjeturar.
Eu e você.
Formamos algo lindo.
Ao seu lado só quero ficar sorrindo.
Belo amor meu.
O que aconteceu?
Por que nos distanciamos?
Por que deixamos?
A vida muitas vezes quer nos maltratar.
Mas não podemos deixar.
Eu e você somos alguma coisa importante.
Fascinante.
Porque sorrimos o mesmo riso.
Porque em nossos olhos brilham as mesmas estrelas.
Pensa que não percebi nossos risos idênticos?
Nossas palavras que ora soam trêmulas.
Amor meu, não deixemos o destino nos separar.
Não desta vez...
Pronto, já volto a falar de coisas que não devia.
Fantasia?
Volto a querer recordar outras eras...
Mas recordo. Quando minha mão pega na sua.
Quando meu corpo toca seu corpo.
Quando nos falamos.
Nos olhamos...
Nós somos eternamente “nós”...
Como sinto saudades! Como sinto...

sonia delsin 






ARISTIDES

Negro dos olhos tristes. Estavas sempre por perto. 
Estavas sempre trabalhando e quando seus olhos se voltavam para meu pai eu via adoração neles.
Sim. Você amava a  nossa família e principalmente o meu pai. 
O Italiano gostava tanto do nosso negro trabalhador, do nosso negro quieto.
Lembro bem de você acocorado descascando espigas de milho. Lembro bem do seu chapelão, da sua grande mão.
Há horas em que me pergunto: Como conseguimos guardar tanta gente no coração? 

sonia delsin