CARTA DE ADEUS
chorará, eu sei.
Esperará eu encostar
a porta,
descer os degraus,
ganhar a rua.
Não deixará que eu
veja as
suas lágrimas,
nem o tremor de
suas mãos impotentes.
Me deixará partir
sem dizer nada.
Eu sei.
Só tomará mesmo
consciência que me fui de vez
quando não puder mais ver
o frasco do meu perfume
sobre a penteadeira.
Então aspirará a
fragrância adocicada daquele
que
ainda ficou no ar.
Buscará no guarda-roupa
aquele meu vestido vermelho
para abraçar.
E ele não estará lá.
Correrá ao banheiro e
a minha escova de dentes
já não estará fazendo
companhia à sua.
Buscará sob a cama
aquele meu par de chinelos
que faz um barulhinho
irritante.
E que o acorda
sempre quando
me levanto no meio da noite.
Não ouvirá minha voz
no chuveiro tão desafinada.
E na hora da refeição
sobre a mesa não haverá nada.
Lembrará então do meu livro
de cabeceira.
Se estiver lá
é que vou voltar.
Mas não o encontra...
Sobre o criado mudo
em vez do livro verá
minha carta de adeus onde
explico tudo.
Esclareço bem porque
resolvi lhe deixar.
sonia delsin

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